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Paraíba,07 de Setembro de 2010
Pedro Nunes Filho
pnunesfilho@yahoo.com.br

Há esperança! Imprimir E-mail
25 de Agosto de 2010

               
             
O Cariri paraibano experimentou um surto de riqueza bastante expressivo na segunda metade do Século 19, exportando algodão em plumas para a Inglaterra. Na época, as fazendas do Cariri cobriram-se de campos de algodão. Plantava-se um pé do arbusto miraculoso onde quer que houvesse um pedaço de terra disponível. A riqueza trazida por esse bem maior, também chamado ouro branco, ficou retratada em casarões com suas fachadas imponentes e cômodos confortáveis, construídos pelos barões do algodão em cidades e fazendas onde moravam.  Embora possuíssem traçados urbanos bem pensados e um casario belíssimo, as cidades do cariri eram carentes de investimentos em saúde e educação. 
 

               Fazendeiros e comerciantes abastados, conscientes da importância da educação, faziam esforço descomunal e mandavam seus filhos estudar nos melhores colégios de João Pessoa e Recife, onde ingressavam em faculdades, se formavam e brilhavam profissionalmente. Desprovidos dos benefícios da educação, os filhos dos moradores-meeiros e proprietários menos remediados ficavam nas fazendas, dando continuidade às atividades agrícolas dos pais.   
 
               Região possuidora de uma vocação econômica rentável — o algodão — era grande o volume de capital que nela circulava, azeitando o comércio e impulsionado sua economia.
 
               Apesar do progresso, faltavam investimentos nas áreas de educação e saúde. Não dá para se saber qual das duas necessidades era mais precária.
 
                 As pequenas cidades não possuíam abastecimento de água, nem redes de esgoto, nem serviços de saúde. Muito menos hospitais. As populações viviam ao deus-dará, entregues à própria sorte e abandonadas pelos poderes públicos. Tamanho desprezo pela saúde acarretava algumas consequências nefastas para as populações. Vejamos:


                  1. Alto índice de mortalidade infantil. Quase todos os dias, os sinos das igrejas badalavam tristes repiques anunciando enterros de anjinhos.


                   2. A média de vida da população era baixíssima, não chegando aos 50 anos. Para constatar isso, basta observar as datas de nascimento e de morte em túmulos antigos localizados em cemitérios da região. A constatação dessa realidade é, de fato, estarrecedora. As pessoas que conseguiam se livrar de doenças, como tuberculose, tifo, sarampo, bexigas, pneumonia, verminoses e diversos tipos de infecções beiravam os cem anos de idade, com memória de criança. Zoroastro, morador antigo da Prata, relatou-me que, há cem anos, quando adoecia uma pessoa naquela vila, deitavam o moribundo numa rede com dois paus atravessados em cada punho para ser conduzido por dois cavalos ou burros até a cidade de Monteiro, onde talvez pudesse existir algum médico ou bom farmacêutico para diagnosticar e medicar o doente, mesmo precariamente. 


                   3. Nos partos, as mães eram assistidas por uma parteira e, rodeadas de precariedades, as crianças nasciam em casa mesmo. Embora as parteiras fossem pessoas experientes, eram frequentes as notícias de mulheres que morriam de parto.


                    4. Por mais saudáveis que os alimentos fossem, havia sempre carência de vitaminas e sais minerais que findava deixando a população desdentada. Se médico era profissional raro, dentista não havia em parte alguma.


                   5. Constatava-se também muita cegueira. Alguns casos motivados por acidentes com espinhos ou moléstias do mundo que atingiam os olhos. A maioria dos cegos, entretanto, era vitimada por glaucoma, doença que interrompe o fluxo de lágrimas e a pressão do líquido acumulado rompe o nervo ótico, causando perda instantânea da visão. 

                    
                     A partir de 1960, a cultura do algodão, que já vinha cambaleando, deu sinais de completa exaustão, levando os proprietários rurais à falência e obrigando os trabalhadores a migrar em massa para o Rio, São Paulo e Brasília, onde muitos progrediram, mas a maior parte, lamentavelmente, se favelou. Depois que a cultura do algodão se extinguiu, ninguém descobriu mais outra vocação econômica que restaurasse a economia da região.

                      Fazendas abandonadas pelos herdeiros, ultimamente vêm sendo invadidas por grupos de sem-terra. Carentes de vocação e experiência rural, sem assistência técnica e crédito, desmatam e desertificam terras outrora produtivas. Exemplos dessa problemática são as fazendas Santa Catarina, Feijão, Monconha, Serrote Agudo e diversas outras que deixaram história nesse belíssimo recorte geográfico chamado Cariri paraibano.


                       Os tempos mudaram, a vida do povo, também. Algumas coisas melhoraram, outras, infelizmente, pioraram. Importa reconhecer que, no todo, o saldo é positivo. Vejamos:


                        Algumas cidades do Cariri ganharam água abundante e de boa qualidade. Recentemente, a Adutora do Congo, obra de grande alcance social, abastece Monteiro, Prata, Ouro Velho e Amparo, cujas populações sofriam horrores quando os açudes locais secavam. A Prata foi além do perímetro urbano e abasteceu várias comunidades rurais, levando-lhes um benefício inestimável. Em Monteiro, há mais de 30 anos, Arnaldo Lafayette implantou rede de saneamento e esgoto, benefícios que Marcel em breve vai proporcionar à comunidade da Prata.


                        Hoje, todas as cidades do Cariri possuem hospitais, clínicas médicas, ambulatórios com médicos, dentistas, corpo de enfermagem e ambulâncias para o transporte de enfermos, quando as condições locais não permitirem diagnóstico e tratamento. Em todas essas localidades, as gestantes desfrutam de pré-natal, direito à maternidade e assistência a seus bebês. Não disponho de estatísticas de mortalidade infantil. Mas tenho certeza de que, depois dessas medidas assistenciais, os índices de mortalidade infantil reduziram-se drasticamente, aproximando-se de patamares aceitáveis. Esse conjunto de bens voltados para a saúde, acrescido de fornecimento gratuito de medicamentos a pessoas carentes, elevou a média de vida da população. Hoje já não se morre mais daquelas doenças que no passado vitimavam tanta gente. Entretanto, a degradação do meio-ambiente e o consumo de alimentos produzidos com a ajuda de elementos químicos multiplicaram a incidência de vários tipos de cânceres, da mesma forma que o sedentarismo contribui para aumentar as doenças cardiovasculares e e senis.

                        Quanto à educação, surgiram creches, escolas de ensino fundamental, ensino médio e faculdades. Hoje, não estuda quem não quer. Faltam, porém, escolas técnicas profissionalizantes que tenham relação direta com a vocação econômica de cada município. Esta ação, segundo os noticiários, já é providência que anda em vias de se concretizar.


                         As estradas de barro do passado transformaram-se em rodovias asfaltadas. Redes de energia elétrica cobrem toda a região do Cariri, possibilitando os habitantes das pequenas comunidades e da zona rural desfrutarem de todo tipo de eletrodomésticos que servem às residências das grandes cidades. Antenas parabólicas transmitem imagens de alta resolução, levando distração e informações úteis a populações outrora completamente isoladas. Rede de Internet grátis é um benefício que deixa cada recanto do nosso Cariri conectado ao mundo. O uso de celulares popularizou-se nas cidades e no campo.

                         Embora ainda se constate migração para centros industrializados, acabaram-se os paus-de-araras que todos os dias despejavam levas e mais levas de nordestinos famintos na Estação da Luz, em São Paulo. Passou a época da Grande Partida, canto de dor composto por Patativa do Assaré e cantado por Luis Gonzaga, descrevendo o drama de uma família que abandonava seu torrão natal em busca das terras distantes do Paraná. O Nordeste hoje cresce em índices superiores às demais regiões do Brasil e começa a competir na tração de investimentos vindos de fora.


                            Diante dessa realidade tão promissora, as municipalidades precisam se organizar, especialmente em infra-estrutura voltada para educação e saúde, sustentáculos indispensáveis para um desenvolvimento que, aos pouquinhos, começa a chegar. Importante é não haver descontinuidade nos processos administrativos. Enquanto a Prata sofreu alguns períodos de administração visivelmente ineficiente e até certo ponto desastrosa, só agora plenamente recuperada na gestão de Marcel, Monteiro vem mantendo uma linha crescente e contínua de gestões produtivas, comprometidas e responsáveis.


                            Não há dúvidas de que a chegada do Velho Chico trará grandes benefícios a essa região que viveu séculos mergulhada em atraso e esquecimento, não obstante seja possuidora de terra, água e clima maravilhosos.

                           O progresso está chegando. O Brasil acaba de ser classificado como a 8ª Economia do mundo. As ramificações capilares do progresso vão depender da atuação de gestores responsáveis e comprometidos com suas municipalidades. Como estamos numa democracia, a cada quatro anos, o povo é quem decide a quem vai entregar os negócios públicos. Cada dia mais os eleitores estão vendo que não compensa vender o voto e ser governado por aventureiros, ávidos em pôr as mãos no dinheiro público para enriquecimento pessoal.


                            No Cariri, há exemplos de gestores éticos e comprometidos com o bem-comum. São pessoas assim que começam a preparar seus municípios para dias melhores na vida do povo.


                              Há esperança!
           

Pedro Nunes Filho
Advogado tributarista e escritor
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