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Lourival Nunes era meu primo carnal, nascido na Fazenda Boa Vista, no Cariri paraibano, onde nasceram o meu pai e o poeta Zé de Cazuza. Lourival, foi um homem além do seu tempo, empreendedor inteligente, foi um Delmiro Gouveia daqueles Cariris. Quando avião ainda era apenas um ponto escuro, sobrevoando as alturas daquelas caatingas, Lourival já possuía um "teco-teco", que ele mesmo pilotava. Casado pela segunda vez, com Zanita Romão, uma monteirense bonita, esta lhe deu seis filhos que vi crescerem, quando estudava em Monteiro e morava na frente à casa onde moravam. Daí o meu apego, com os meninos que considero como sobrinhos. Lourival Filho, Louro como o chamamos, é um deles e de quem ouvi essa história: Durante a década de sessenta, Lourival montou uma fábrica de beneficiamento de sisal, cuja cultura era abundante na Paraíba. A fábrica chegou a ter cento e tantos operários. Poroca, um matuto gordinho e sarará, era um deles, mecânico dos bons, era também um dos homens de confiança de Lourival. Muito apegado aos meninos do patrão, tinha pois a sua simpatia. Lourival era um sujeito alvo, bem falante, leitor compulsivo, viajado e muito elegante no trato com as pessoas. Mas era também muito esquentado e não gostava de ouvir desaforos de ninguém. Usava invariavelmente, roupa branca de linho e freqüentava o melhor clube da Cidade de Monteiro, que era o Aero Clube de Monteiro. Que era realmente o melhor até por que só tinha esse mesmo. O maquinário da fábrica tinha que ser lubrificado todo fim de tarde quando terminava o expediente e os mecânicos, terminada a tarefa e longe dos olhos do patrão, transformavam o ambiente, num verdadeiro faroeste, influência dos filmes assistidos no Cine Galdino. Transformavam-se em "artistas e bandidos" trocando tiros, com jatos de óleo das possantes motolias à pressão. Eram aqueles "caubóis" de motolias em punho, como se fossem revólveres, trocando tiros com jatos de óleo lubrificantes, onde todos artistas e bandidos terminavam o "filme" invariavelmente ensopados com o óleo fino e pegajoso que era destinado às máquinas. Aquela sessão de cinema acontecia quase todo fim de tarde, enquanto o patrão tomava o seu uisquinho, em companhia dos amigos no Aero Clube. Poroca, era um dos "caubóis" mais destemidos uma vez que com a sua motolia matava literalmente todos os inimigos. Tá rendido? Se o cabra não levantasse as mãos, levava uma rajada de óleo. Isso tudo acontecia em meio às possantes máquinas da usina. Um fim de tarde, tava lá o maior faroeste, com o "caubói" Poroca atirando em todo mundo que não se rendesse. Foi quando o patrão, resolveu voltar pra fazer uma recomendação aos mecânicos depois de algum tempo que já havia saído. Entrando na sala das máquinas, notou alguma coisa estranha, uma certa correria, só que não avistava ninguém. Resolveu dar uma olhada mais de perto e quando passou por trás de uma das máquinas, ouviu a ordem: Tá rendido? E antes de qualquer reação, levou aquele banho de óleo que lhe cobriu da cabeça aos pés, deixando verde-oliva, a sua roupinha de linho, branco e as lentes dos seus óculos. Quando o "caubói" Poroca, percebeu quem era o alvo, aí já era tarde, o patrão tava lá bronzeado e imóvel, parecendo a estátua da praça João Pessoa. O velho Poroca, largou no chão o seu "revólver" e desapareceu no oco do mundo. E só veio dar as caras, quinze dias depois, quando Lourival mandou um embaixador na sua casa, com um decreto de anistia. E uma ordem para ele voltar ao trabalho. O patrão precisava de Poroca...
Joselito Nunes -
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