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Paraíba,05 de Setembro de 2010
Alexandre Nunes
anunesnunes@hotmail.com

No caminho da verdade e da fé raciocinada Imprimir E-mail
Alexandre Nunes
10 de Agosto de 2010

Apresento aos leitores desta coluna um belo texto de Juvenir Borges de Souza sobre os conceito de verdade e fé.

Confira na íntegra:

Verdade e Fé

Juvenir Borges de Souza

“Que é a verdade?” Essa foi a pergunta formulada pelo governador romano Pôncio Pilatos a Jesus, o Cristo de Deus, quando de seu julgamento pelos homens, naquela passagem narrada nos Evangelhos que ainda hoje tanto nos constrange.  A pergunta não obteve resposta. De que valeria qualquer réplica, se o interlocutor não tinha a mínima condição de entendimento e percepção de uma questão que ultrapassava os conhecimentos comuns?

O silêncio do Mestre Incomparável foi mais um ensino ministrado naquelas circunstâncias, que demonstravam a profunda ignorância dos seus perseguidores e julgadores. Certas ideias consideradas expressões da verdade, em determinadas condições de tempo e de lugar em que são admitidas, não significam que sejam sempre corretas e imutáveis.

Assim, uma verdade aceita em determinado momento, deixa de sê-lo em outras épocas, já que ela depende da razão e da evolução humanas, essencialmente mutáveis. Com o progresso, lei natural ou divina, a Humanidade caminha na busca de novos conhecimentos, aperfeiçoando também os sentimentos. Essa evolução determina a modificação do conceito de verdade, que é relativo e se modifica com as conquistas intelecto-morais dos homens.

A esse conceito relativo da verdade, mutável em função das novas  conquistas de conhecimentos e sentimentos dos habitantes da Terra, contrapõe-se a Verdade, em seu sentido absoluto. A Verdade absoluta ainda não pode ser alcançada pelo homem, habitante da Terra, um mundo atrasado, de “expiações e provas”, na classificação dos Espíritos reveladores.

A Doutrina Espírita ensina que os Espíritos que habitam a Terra estão longe de conhecer a Verdade absoluta reservada ao Criador e aos que alcançaram a condição de Espíritos puros. Aqueles que julgam infalível sua razão estão mais próximos do erro que da Verdade, como afirma Allan Kardec, no item VII da “Introdução” de O Livro dos Espíritos.  A razão humana confunde-se muitas vezes com o orgulho disfarçado de quem se considera infalível.

Daí a necessidade de cultivar-se  a humildade, juntamente com o amor a Deus e ao próximo, síntese de todos os deveres daqueles que já se convenceram de que os homens estão longe de chegar ao apogeu de sua trajetória infinita. A Verdade absoluta, eterna e imutável está acima da inteligência do homem, por mais vasta que seja. Somente Deus, eterno e imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom, corresponde  à ideia da Verdade absoluta, tal como a podemos conceber, mas não vê-la ou defini-la.

Na questão 628 de O Livro dos Espíritos Kardec formula a seguinte pergunta: Por que a verdade não foi sempre posta ao alcance de toda gente? A resposta dos Espíritos reveladores é longa, mas se resume nos esclarecimentos iniciais: “Importa que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: o homem precisa habituar-se a ela, pouco a pouco; do contrário, fica deslumbrado”.

O sábio ensino dos Espíritos superiores mostra que a sabedoria, o crescimento espiritual de cada ser são graduados, adquiridos pouco a pouco. Desde sua criação, simples e ignorante, o Espírito vai incorporando aspectos variados da verdade, de conformidade com seus esforços e suas experiências. Para isso dispõe da eternidade e se submete às leis divinas, sábias, perfeitas e imutáveis.

Embora criados simples e ignorantes, os Espíritos não são abandonados nessas condições iniciais. Dispondo do livre-arbítrio, cada ser envereda pelo caminho que escolhe. Se a estrada escolhida é de sombras e trevas, nada impede que o Espírito mude de rumo, buscando a luz, contando para isso com o apoio das leis divinas. A luz é sustentada por aspectos da verdade, que se vai evidenciando na medida dos esforços empregados na sua procura.

Em mundos atrasados como o nosso, aspectos diversos da verdade  são assinalados não somente pelo trabalho e esforço dos seus habitantes, mas também pelas Revelações trazidas pelos enviados do Alto, que assinalam períodos e épocas da história humana. Muitas foram as Revelações que beneficiaram os habitantes da Terra, proporcionando o seu progresso espiritual.

Na tradição do mundo ocidental ficaram assinaladas a do Antigo Testamento, com Moisés; a do Novo Testamento, com a presença pessoal do Cristo de Deus; e a terceira, com o advento do Consolador Prometido por Jesus, representado pela Doutrina dos Espíritos, codificada pelo missionário Allan Kardec. Em cada uma dessas Revelações foram confirmadas verdades já conhecidas anteriormente, ao lado de novos conhecimentos e de retificações de ideias e pensamentos já conhecidos.

Em suma, o conhecimento da verdade é gradativo e compete a cada criatura, no decorrer da eternidade, em obediência às leis divinas do amor e do progresso.  Subsiste determinada ligação  entre a Verdade e a Fé.  Como Deus é a Verdade absoluta, a Fé no Criador é a convicção íntima da consciência individual. 

A verdadeira fé não pode ser imposta, seja pela força ou pela conveniência passageira. Somente a consciência livre e firme é capaz de gerar vislumbres da verdade e construir a verdadeira fé.  A plenitude da fé pressupõe que antes dela existiu a dúvida, própria dos seres imperfeitos, mas estimulante da busca do progresso e da perfeição. Sob o ponto de vista religioso, a fé baseia-se em dogmas das diferentes crenças, podendo ser cega ou raciocinada.

A fé cega aceita tanto o que é verdadeiro quanto o que é falso, sem aprofundar o exame. O fanatismo é consequente desse tipo de fé. Já a fé raciocinada baseia-se em verdades e em realidades, utilizando-se do raciocínio lógico para a formação do juízo e de suas consequências. Diversas religiões tradicionais, impondo uma fé cega em seus princípios e dogmas, pretendendo, desse modo, a posse da verdade, cedo ou tarde desmoronam-se em suas bases.

A verdadeira fé conduz aquele que a construiu em sua consciência à confiança em Deus e nos seus desígnios, cultivando a humildade e repelindo o orgulho, o egoísmo e a presunção. Cultivar essa fé significa confiar no Criador, no Cristo, Governador Espiritual do mundo, nos seus trabalhadores e prepostos e nas leis divinas que regem tudo o que existe. Na linguagem figurada do Cristo, a fé transporta as montanhas, significando que todas as dificuldades podem ser superadas por aqueles que confiam nos poderes de Deus e nas suas leis.

Realmente, não há obstáculos intransponíveis para quem não se abala em sua fé, cultivando a confiança e a certeza de atingir determinada finalidade, justa perante as leis divinas, apesar de todas as dificuldades do caminho: doenças, incompreensões, pobreza, resistências alheias. A perseverança é característica da fé esclarecida, capaz de vencer tanto os pequenos quantos os grandes empecilhos.

Entretanto, se porventura aquele que cultiva a verdadeira fé não consegue atingir os objetivos visados, nem por isso perde a confiança e a segurança, porque compreende que acima do alvo pretendido estão as leis naturais ou divinas, que devem ser entendidas e obedecidas em todas as circunstâncias. A fé esclarecida tem, assim, o sentido de confiança na realização de determinados fins, sem que seu possuidor perca a lucidez se não consegue o objetivo.

A calma, a paciência e a compreensão fazem parte da fé sincera, enquanto a fé vacilante sente sua fraqueza quando seus interesses não são atingidos. A fé cega foi imposta por diversas religiões a seus adeptos. Sem o conhecimento das revelações sobre a vida do Espírito após a morte do corpo físico, e com a perspectiva de um céu de delícias, ou de um inferno de sofrimentos eternos, as massas humanas vivem neste mundo alheias à realidade que as espera, completamente diferente do que é ensinado pelas religiões, cujos ensinos estão ultrapassados.
 
Da fé cega resultou a incredulidade e a dúvida de muitas criaturas, fortalecendo o materialismo multifário. Já a fé raciocinada, apoiando-se nos fatos, na realidade e na lógica, leva à compreensão e à certeza, fortalecendo o homem na busca da verdade. Por isso, o Espiritismo, a Terceira Revelação dos tempos atuais prescreve: Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIX, item 7.)

A Doutrina Espírita, o Consolador Prometido por Jesus, já se encontra entre os homens, restaurando o Cristianismo primitivo, autêntico, e dando-lhes conhecimento das leis divinas, da eternidade da vida, que se desdobra nos mundos materiais e espirituais, da doutrina da reencarnação e da responsabilidade individual pelos pensamentos, palavras e ações, além de muitos outros ensinos que mostram a verdade e fortalecem a fé verdadeira.

Com o Consolador no mundo, têm os homens a revivência dos ensinos corretos do passado, com o acréscimo de novas revelações que asseguram, aos que amam a verdade e buscam a fé verdadeira, uma estrada segura para sua ascensão. O servidor que confia nas leis da vida tem agora uma indicação correta e firme da direção a seguir. Pode, assim, mesmo no nosso mundo de provações e resgates, dirigir-se com segurança no sentido correto, desde que se disponha a agir sempre no bem, tanto nas pequenas como nas grandes tarefas.

A fé esclarecida pela verdade oferece aos que comprovam tê-las encontrado uma nova vida com amor e sabedoria. O Espiritismo no mundo tem por escopo orientar corretamente o homem na busca da perfeição. A felicidade neste mundo não se encontra nos variados gozos materiais buscados avidamente pelo homem desavisado, mas sim na compreensão do sentido da vida e no aproveitamento das oportunidades sempre renovadas para a prática do bem.

À luz do Consolador, ser cristão, hoje, não significa martírio ou imolação da própria vida, como nos primeiros tempos do Cristianismo, mas requer o sacrifício do egoísmo e do orgulho, individuais e coletivos, para que predomine sempre o amor a Deus e ao próximo, inspirando a fé esclarecida. 

 

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