Como dois rivais do interior viraram um time só e tentam feito inédito na última divisão de SP

  • 16 de agosto de 2023

Habitada por pouco mais de 100 mil pessoas, a cidade de Assis, a cerca de 430 quilômetros de São Paulo, vive a expectativa de protagonismo no futebol.

O município do interior jamais teve um representante na elite do Campeonato Paulista. Na tentativa de contornar a situação, decidiu juntar forças e tornar os rivais Vocem e Assisense um só time. A ideia conta com o apoio da prefeitura e está sendo abraçada pela população local.

Por nove anos seguidos, Vocem e Assisense duelaram na Segunda Divisão do Paulistão – o equivalente, na verdade, ao quarto nível estadual. Em meio à queda de braço pelo dinheiro dos patrocinadores, pela preferência dos torcedores da cidade e pelo melhor projeto a ser oferecido aos jogadores, nem um e nem outro conquistou nada dentro de campo.

Sem resultados expressivos e com Assis “escondida” no cenário estadual, a solução proposta foi uma unificação dos clubes. Afinal, se a união faz a força, a cidade poderia ter melhores chances com apenas uma única equipe em evidência.

As negociações foram centralizadas no prefeito José Fernandes (PDT), que viu com bons olhos a união entre os clubes e se comprometeu em buscar empresários da região dispostos a ajudar Assis a crescer no futebol paulista. As diretorias não demonstraram resistência, e o acordo foi selado no segundo semestre do ano passado.

América-SP e Vocem empataram por 2 a 2 pela segunda divisão do Paulista — Foto: Fran Zanini

– Nossa cidade é pequena e há dificuldades para achar patrocinadores. A própria prefeitura tinha dificuldade em apoiar time A ou time B. Fomos procurados com a ideia de unificação e apoiamos. Tivemos inúmeras reuniões com empresários, apresentamos uma proposta e deu certo. Agora, temos uma só torcida, um só patrocinador e um só apoiador, que é o município de Assis. Temos uma equipe que virou o orgulho da cidade – explicou o prefeito.

A equipe em questão é o Vocem/Assisense. Não houve a criação de um novo clube, com um novo estatuto e um novo escudo. Na prática, a cidade utiliza a vaga do Vocem na Série B do Paulistão, enquanto o Assisense se licenciou das competições profissionais.

A única mudança visível foi a confecção de um novo uniforme com as cores bordô e branco (Vocem) acrescentadas do azul de seu, agora, antigo rival.

– No início foi impactante para as torcidas. A torcida do Vocem era um pouco maior, houve uma rixa de começo, mas a gente soube fechar os ouvidos e fazer o trabalho. Não há vaidade, a gente toca o clube com muita seriedade, o melhor caminho é esse. Estamos colhendo frutos tanto no profissional como no sub-20 – disse Fábio Mello, presidente do Assisense.

Em campo, a parceria teve um início promissor. Nas duas primeiras fases da Série B foram 17 jogos de invencibilidade. A sequência foi quebrada com duas derrotas, que colocaram o Vocem/Assisense em situação complicada no quadrangular com União Barbarense, América de Rio Preto e São Carlense que vale vaga nas quartas de final do Paulistão.

Nesta quarta, às 15h (de Brasília), a equipe de Assis joga em Santa Bárbara d’Oeste com o objetivo de entrar na zona de classificação do grupo. Uma derrota combinada com uma vitória do América no outro jogo do dia pode adiar o sonho do Vocem/Assisense em disputar a Série A3 no ano que vem.

E pode adiar, consequentemente, o sonho de Assis em ter um time na elite do Paulistão em um futuro próximo.

Futuro é uma incógnita

Apesar do apoio da prefeitura, que entregou em janeiro deste ano a obra de cobertura de parte das arquibancadas do Estádio Municipal Antônio Viana da Silva, o Tonicão, e da unificação do dinheiro vindo de patrocínios da iniciativa privada, o futuro é incerto.

A criação de um novo clube ou o licenciamento de algum deles é um tema delicado em Assis. Por enquanto, a gestão do Vocem/Assisense, tanto da base quanto do profissional, é compartilhada entre as duas diretorias. No futuro, a possibilidade de permanência da parceria depende de novas conversas.

Torcida de Assis tem comprado a ideia de unificação entre os clubes — Foto: Reprodução/Instagram

– Temos que ver como pode ser feito judicialmente, estamos alinhando para fazer algo muito bem feito. Não queremos mais problemas para a cidade, assim que acabar o campeonato vamos sentar com o prefeito, ouvir as torcidas e ver o que pode ser feito, mas já estamos trabalhando em cima disso. Queremos começar com o pé direito – afirmou Lauro Valim, presidente do Vocem.

– Foi tudo muito rápido, então a gente precisava de algum tempo para legalizar tudo na Federação Paulista. Demora um tempo para ter a documentação, então seguramos um pouco e estamos levando no ‘fio do bigode’. Tudo indica que haja uma unificação, mas estamos avaliando e estudando o que pode ser feito juridicamente – reiterou Fábio Mello.

Quem é o Vocem?

  • Nome: Vila Operária Clube Esporte Mariano (Vocem)
  • Fundação: 21 de julho de 1954
  • Apelido: Esquadrão da Fé
  • Melhor campanha: quarto colocado na Série A2 de 1984

Quem é o Assisense?

  • Nome: Clube Atlético Assisense
  • Fundação: 27 de março de 1995
  • Apelido: Falcão do Vale
  • Melhor campanha: oitavo colocado nas edições de 2013 e 2019 da Bezinha

Fusão não é novidade no Brasil

O modelo de Assis, embora pareça inovador, não é novidade no futebol brasileiro. O caso mais famoso é o do Paraná Clube, criado em 1989 a partir da unificação entre o Colorado Esporte Clube e o Esporte Clube Pinheiros.

O time curitibano colheu bons resultados em seus primeiros anos de vida, chegou à elite do Brasileirão e, em 2007, disputou a Copa Libertadores da América. Atualmente, após enfrentar seguidas más gestões e lidar com diversas crise financeiras, o Paraná está na segunda divisão do futebol estadual e não tem divisão no cenário nacional.

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