Em reunião, ministro da Defesa de Bolsonaro disse que se reunia com comandantes para discutir eleições e reeleger Bolsonaro

  • 9 de fevereiro de 2024

Em uma reunião ministerial de Jair Bolsonaro (PL), às vésperas das eleições de 2022, o então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, afirmou que se reunia, semanalmente, com comandantes das Forças Armadas para discutir o processo eleitoral. Segundo ele, as conversas tinham o objetivo de garantir “eleições como a gente sonha”, com o “êxito” de reeleger Bolsonaro.

As declarações constam de um vídeo com a íntegra da reunião, realizada em julho de 2022, que embasou a operação da Polícia Federal contra militares e ex-ministros de Bolsonaro suspeitos de participarem de uma tentativa de golpe de Estado.

As imagens foram encontradas no computador de Mauro Barbosa Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, e tornadas públicas nesta sexta-feira (9) pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

No encontro, o então presidente Bolsonaro e ministros debateram “ações” antes das eleições daquele ano. Segundo a PF, o ex-presidente ordenou a disseminação de informações fraudulentas para tentar reverter a situação na disputa eleitoral – e evitar uma eventual vitória do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Então ministro da Defesa, Nogueira narrou, ao longo de sete minutos, a participação das Forças Armadas nas etapas de fiscalização do processo eleitoral.

Ele falou, por exemplo, da participação de técnicos escolhidos pela pasta em uma comissão de transparência, organizada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para contribuir com a auditoria das eleições.

Depois de pedir sigilo para as suas declarações e chamar o colegiado de “conversa para boi dormir”, Paulo Sérgio Nogueira disse estar “junto” de Jair Bolsonaro. O ministro afirmou que os comandantes das Forças Armadas trabalhavam para que houvesse “êxito” na reeleição de Bolsonaro como “presidente de todos nós”.

“Senhor presidente, eu estou realizando reuniões com os comandantes de Forças quase que semanalmente. Esse cenário nós estudamos, nós trabalhamos, nós temos reuniões pela frente decisivas pra gente ver o que pode ser feito, que ações poderão ser tomadas para que a gente possa ter transparência, segurança, condições de auditoria e que as eleições se transcorram da forma como a gente sonha, e o senhor, com o que a gente vê, no dia a dia, tenhamos o êxito de reelegê-lo e ser o presidente de todos nós.”

‘Contato’ com o inimigo

Em outro momento de sua fala, o então ministro da Defesa disse sentir estar em uma “linha de contato com o inimigo”, ao se referir aos trabalhos na comissão do TSE.

“O que eu sinto, nesse momento, é apenas na linha de contato com o inimigo. Ou seja, na guerra, a gente ‘linha de contato, linha de partido, eu vou romper aqui e iniciar minha operação’. Eu vejo as Forças Armadas e o Ministério da Defesa nessa linha de contato. Nós temos, sim, precificar e ajudar nesse sentido, para que a gente não fique sozinho nesse processo. Nós estaremos em cada fase pressionando. E daí? Nós vamos ter um sucesso, um resultado, uma transparência, uma segurança, uma condição de dizer: ‘Não, realmente é mínima a chance de fraude, ou é grande a chance de fraude?'”

“O TSE tem o sistema e o controle do processo eleitoral. Como disse o presidente, eles decidem aquilo que possa interessar ou não, e não tem instância superior. E a gente fica ali, de mãos atadas, esperando a boa vontade de ele aceitar isso ou aquilo outro”, disse o ex-ministro da Defesa na ocasião.

As Forças Armadas integraram a comissão de transparência das eleições do TSE, criada pelo então presidente da Corte Eleitoral, ministro Luís Roberto Barroso.

O grupo foi criado como reação a uma série de ataques ao sistema eleitoral de Bolsonaro. 12 especialistas em tecnologia e representantes de instituições públicas e privadas foram indicados para acompanhar cada etapa do processo eleitoral.

Além da comissão, as Forças Armadas também participaram como entidade fiscalizadora do processo eleitoral de 2022.

As entidades fiscalizadoras são aquelas autorizadas, por exemplo, a ter acesso aos sistemas eleitorais desenvolvidos pelo tribunal e ao código-fonte, um conjunto de linhas de programação de um software com as instruções para que o sistema funcione.

No ano passado, o Tribunal Superior Eleitoral decidiu, por unanimidade, retirar as Forças da lista de entidades fiscalizadoras.

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