Padre de São Domingos do Cariri repudia “matança de Judas” e emite nota

  • 31 de março de 2024

O padre responsável pela paróquia dos municípios de São Domingos do Cariri e Cabaceiras, João Jorge Rietveld, emitiu uma nota de repúdio, sobre o ato de “matança de Judas”, que aconteceu ontem (30) na cidade de São Domingos do Cariri. Na nota, o padre frisa que Jesus nunca mandou matar ninguém. 

Veja a nota na íntegra: 

Eu, padre João Jorge Rietveld, responsável pelo setor paroquial de Nossa Senhora da Conceição e São Bento – Cabaceiras e São Domingos, venho a público repudiar a absurda festa da “matança do Judas” que aconteceu ontem, dia 29 de março de 2024, na Sexta-Feira Santa, em frente à nossa Igreja Católica, recentemente totalmente reformada com grandes investimentos pessoais e comunitários.

Há nove anos tentamos construir o ensinamento na nossa Paróquia sobre a caminhada com Jesus, assim como tantos dos meus antecessores. No centro desta evangelização, existe uma certeza: Jesus nunca mandou matar ninguém, nem Herodes, nem os soldados, nem Caifás, nem Pilatos, nem os homens que o mataram de fato e muito menos aquele que o entregou: Judas. Foi exatamente o contrário. Uma das últimas frases que Jesus pronunciou na cruz foi “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que estão fazendo”. Diante disso, Judas foi o primeiro a receber seu perdão. Logo, quem poderia duvidar disso? Essa sendo a essência do Cristianismo. E agora, festeja-se o “direito” de que alguns de nós devem matar Judas? Disso posso dizer que é o evangelho de avesso.

A tradição mais antiga de São Domingos não é de matar o Judas, mas sim de celebrar a Semana Santa com seus ritos e reflexões que este tempo tão lindo necessita, além de conviver em comunidade seguindo os passos que Cristo nos ensinou. Tradições devem ser mantidas, como defendi durante meus 40 anos de missão no Cariri, com muito entusiasmo. Porem existem alguns critérios, para que a torne válida, sendo o primeiro a obediência e respeito por outras tradições já existentes e celebradas; e a segunda a avaliação de fato se o que é considerado “tradição” concentra-se em ser algo que tenha sentido de lançar-se como uma tradição, ultrapassando a barreira de gerações e valendo a pena ser repetida com o apoio de todos. Portanto, nota-se que esta pratica não agrega em nada, aliás, muito desagrada o nosso povo e nossa estrutura, onde nestes nove anos, luto contra a vandalização de nossa fé e nosso patrimônio. Repudio e defendo que nós como um povo de Deus, devemos extinguir e passar a não caminhar mais com esta prática em nossa sociedade. 

Com base nisso, podemos observar o exemplo do Município de Cabaceiras, que atendeu o pedido dos meus antecessores (padres) e acabaram com este gesto tão desagradável para a fé Cristã, não cabendo mais as práticas incoerentes com o que nos foi ensinado.

Pode-se ainda questionar “e padre manda na praça?” Manda de jeito nenhum. Quem detém o poder de preservação destes espaços é o Poder Público, desde 7 de janeiro de 1890, quando o Brasil conhece a separação de Estado e da Igreja. Apoiamos plenamente. Mas em nome dos católicos, posso e devo me posicionar e exigir respeito por este dia e o espaço entre as duas igrejas – onde foi construídas duas fogueiras – desrespeitando nossos ritos e em especial, meu pedido durante estes 9 (nove) anos. Temos 365 dias no ano, mas esta semana é a mais importante do nosso calendário, onde passamos a enxergar a Paixão que nos move a sermos seres humanos melhores e buscar a salvação com o exemplo dado por nosso Salvador.

Acredito que o bom senso de todos que passaram pela catequese, sabe da importância dos fundamentos básicos da nossa religião, afim de não promulgar incoerências religiosas, confio que nos lares católicos, cada pai e cada mãe ensine o evangelho e os bons costumes aos seus filhos, fortalecendo e confirmando a estrutura de que educação das futuras gerações deve começar pelas crianças. Diante disso, não há como correlacionar este tipo de “brincadeira” que não resgata nenhum sentido teológico ou histórico com a educação de base cristã, já que contrapõe diretamente o que nos foi ensinado pela Bíblia e não agregará valor algum as próximas gerações.

Como eu me sinto? Péssimo. Mais ainda porque pessoas de minha confiança estarem envolvidas, conforme vários relatos e fotos. Depois de consultar muitas pessoas ao meu redor decidi emitir esta carta, sabendo o poder que nela tem em criar grandes divisões. Mas espero do fundo do meu coração vocês que entendam. Todos sabem que prioridade para mim, desde que assumi São Domingos, foi em manter e reforçar a união da nossa igreja, por esta razão que dom Delson me confiou o posto. Investi muito em São Domingos, de todas as maneiras. Infelizmente tenho que falar em público, fora do espaço da igreja, já que em nove anos aparenta não ter surtido tanto efeito. Fui alertado que poderei receber ameaças de todas as formas, mas confio na boa vontade de todos e na bondade de Deus.

Em tempo, ainda necessito citar que o Blog de Bruno Lira, relacionou esta prática difamatória a nossa religião, quando trata em sua matéria que tal ato seria uma “tradição católica”. O repórter foi mal informado. Explico que não há nada menos católico do que este evento. Tal reportagem foi infeliz e fere alguns princípios religiosos e constituintes da nossa legislação. Quanto a este, vou entrar em

contato pessoalmente, mas que fique o exemplo aos demais. Peço desculpas a todos que se sentiram ofendidos por mais um ano da brincadeira de mal gosto de matar o Judas e que esperaram nestes nove anos um posicionamento mais firme da minha parte.

Padre João Jorge Rietveld, 30 de março de 2024

VITRINE DO CARIRI

Com Cariri In Foco

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